O Masculino e o Feminino em Você

Image(imagem: Tiffani Gyatso)

Como a intenção deste espaço é a “exploração do sagrado masculino e do sagrado feminino”, é importante dedicarmos pelo menos um pouco de tempo aos conceitos de masculino e feminino que usarei por aqui. 

A abordagem que vou adotar não é invenção minha, nem surgiu out of the blue. É baseada em conceitos muito antigos, com raízes em tradições como o Ayurveda e as origens do taoísmo e do tantra. 

Nós vamos convencionar como “masculino”, tudo aquilo que em você não muda, ou seja, aquilo que é permanente. Ou seja, o que é essa “coisa” que te permite acordar de manhã e não levar um susto ao se olhar no espelho, ou que te permite afirmar pensamentos do tipo “quando eu tinha oito anos, fiz isso-e-aquilo…” ? Faça esse exercício e reflita sobre aquilo que em você não muda, que te acompanha da infância à velhice e à sua morte. A isso, nós chamaremos de “masculino”. 

O “feminino” é TUDO O MAIS: tudo aquilo que muda em você, desde a sua aparência física, até as suas mudanças de humor, as qualidades de sua energia, sentimentos, sensações, percepções, o clima, as cores, cheiros e sabores que preenchem o seu dia. Tudo o que acontece, a própria VIDA desabrochando, isso é o “feminino”. 

Na Ayurveda, a fonte de toda a existência é a Consciência Cósmica universal, que se manifesta no mundo nas formas da energia masculina e feminina. “Purusha”, associado ao masculino, é a pura consciência, sem forma, passiva, além de causa-e-efeito, além de espaço e tempo, que não participa da criação, mas é a testemunha silenciosa dela. “Prakriti”, a energia feminina, é o reino da ação consciente no mundo, tem forma, cor e características, sendo a própria dança divina da criação. Todos nós somos filhotes do útero de Prakriti, a Mãe Divina. Toda a natureza vem dela. Além disso, tanto Purusha quanto Prakriti são eternos, “fora da roda do tempo”, incomensuráveis, e estão presentes em tudo e todas as coisas, incluindo-se os homens, as mulheres, todos os seres vivos e mesmo objetos inanimados. 

Assim, sempre que eu me referir ao “masculino”, estarei fazendo referência àquilo que em você não muda, à testemunha, à plena consciência observadora; e, quando falar do “feminino”, a referência é a tudo o mais em você: humores, sabores, cores, tempo, clima, energias, etc. De forma simplificada, podemos dizer que o masculino é o “reino da consciência” e o feminino é o “reino da energia ou luz”. E o Universo como o conhecemos é o resultado da foda cósmica entre Purusha, o amante, o masculino, e Prakriti, a amada, o feminino; entre os princípios ativos do masculino e do feminino, do encontro entre consciência e luz. 

Desse modo, cada momento que emerge em seu campo de atenção é uma representação instantânea desse “Big-Bang” da criação, que se repete indefinidamente, momento a momento. A sua capacidade de perceber a natureza real de cada instante como uma “micro-representação” desta foda cósmica é uma demonstração da sua maturidade espiritual. 

As práticas meditativas também podem assim ser classificadas em duas “macro-categorias”: como práticas que estimulam, alimentam e desenvolvem o masculino, ou aquelas voltadas para desenvolver o feminino. Essencialmente, práticas baseadas em uma postura imóvel, com o foco no silêncio e na observação da respiração — o estereótipo de “meditação” para os leigos — podem ser chamadas, nesse contexto, de práticas “masculinas”; por outro lado, práticas baseadas em movimentos sagrados, danças devocionais, ou meditações dinâmicas, cujo foco é o despertar e a circulação da energia vital, podem ser chamadas de práticas “femininas”. 

A partir dessa diferença fundamental entre práticas masculinas e femininas, podemos também observar que cada uma delas busca um ideal diferente: o masculino busca o vazio, o silêncio; o feminino busca a sensação de plenitude da energia, o sentimento de estar “cheio de vida”. 

Por razões históricas, a virtual exclusão das mulheres e a predominância de homens em mosteiros e círculos religiosos em geral acabou por deixar como legado uma certa perversão espiritual que associa meditação ao estereótipo do sujeito sentado em silêncio e despreza tudo o mais como nonsense. Chamo isso de “perversão” propositadamente, pois é resultado simplesmente de um prolongado período de repressão do feminino, que vai desde o século III ou IV B.C. até a ascensão do feminismo, na segunda metade do século XX. 

Hoje, há uma abertura muito maior para a exploração destes aspectos da presença alerta e consciente (masculino) e do fluxo desimpedido de energia vital e luz (feminino) em cada um de nós e, assim, a tarefa do “buscador moderno” consiste em integrar esses aspectos dentro de si mesmo, através da combinação inteligente de práticas que estimulem cada um destes “pólos” do nosso ser. O objetivo desta integração é adquirir fluência em ambos os aspectos de Purusha e Prakriti e, assim, ser capaz de uma ação equilibrada no mundo. 

No entanto, não há “receita de bolo” nem “técnica universal” que funcione para todo mundo. Isso seria tão estúpido quanto receitar laxante pra quem já está com diarréia. Para cada um, uma prática customizada, calibrada para o seu momento específico de vida e seus desafios atuais, é a única “receita” possível. Além disso, outro aspecto a considerar na definição de sua prática específica, individual, é a sua essência sexual: indivíduos com uma essência sexual mais masculina (homens ou mulheres!) terão maior identificação com as práticas masculinas e vice-versa para homens ou mulheres cuja essência for mais feminina. Isso será tema de uma próxima coluna. 

O crescimento e o amadurecimento pessoal dependem portanto deste equilíbrio entre os aspectos do masculino e do feminino dentro de você. Experimente! E boa sorte!

  1. Myla Fonseca

    Texto excelente, direto ao ponto, sobre um tema absolutamente essencial! A alegria em saber que esta coluna está apenas nascendo e começando seus primeiros passos é muita! E chamo atenção p a sessão professores/mentores, que, só ela, já é uma oferenda a quem quiser realmente aprofundar e aprender mais do assunto. Vc tá de parabéns!!!!! E a Titi tb, pq sei q muito dela está em seus textos e q a troca em vcs é profunda! Uma sugestão: mais pra frente, seria muito bom se vc discutisse as formas como o Masculino e o Feminino crescem pra si mesmos, e pro mundo. É um assunto em q muita gente anda acredita em velhos clichês e não têm consciência disso. Muito obrigaaaadaaaaa!!!!!!

  2. Marta

    Muito bom e muito bem escrito, como tudo que você faz!
    Fiquei curiosa agora para entender como – “adquirir fluência em ambos os aspectos de Purusha e Prakriti e, assim, ser capaz de uma ação equilibrada no mundo.” Imagino que será uma das suas próximas abordagens.
    Parabéns, um beijo

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