“Danza Duende”: uma visão do masculino no coração do feminino

Escrevo estas notas aqui de Serpa, Portugal, onde acontece a 3ª edição do “Festival Internacional de Dança Duende”. Criado por Yumma Mudra, uma franco-americana, cigana-bruxa, dançarina-artista e cidadã do mundo, o festival é literalmente uma festa, um deleite, do feminino, numa explosão criativa que toma conta das desertas ruas desta pacata cidade medieval próxima à fronteira com a região espanhola da Andaluzia. 
Vim parar aqui por intermédio do convite recebido por minha esposa, Tiffani Gyatso, para oferecer seu workshop “Slow Art” como parte da programação do evento. Aproveitamos o plano de férias com um motorhome alugado na Andaluzia e Portugal e encaixamos uma coisa na outra. E que grata surpresa chegar a este reduto de arte no meio do Alentejo português.

O festival se organiza em torno do assim chamado “duende”, o “espírito” criativo por trás de tudo o que acontece aqui, sistematizado e desenvolvido em uma escola de criação por Yumma Mudra, e que apenas começo a compreender por observação em nossa curta estadia em Serpa. 

Durante cinco dias, a cidade fica praticamente dedicada ao evento, com as acomodações e restaurantes locais tomados pelas mulheres (imensa maioria) que aqui vêem para aperfeiçoar sua expressão no ‘duende’, compartilhar seu trabalho, ensinar, conviver, criar, rir e chorar. Essencialmente, tocar e abrir tudo e todos à sua volta. 

A cidade tem uma história interessante, cujo nome provém de um mito do dragão-serpente (‘Serpa’) que, em idos tempos, alegadamente surgia em tempos de necessidade premente da população do vilarejo medieval, para salvar seus cidadãos de ameaças externas, como um ataque inimigo, ou algo semelhante. 

Curiosamente, a cidade manteve-se (assim parece!) como há muito tempo, com suas ruas calçadas de pedras grandes e irregulares, casas pequenas e baixas, praticamente todas brancas como cal, com uma grande muralha e aqueduto ainda demarcando o ‘castelo’ que fortificava a antiga cidadela medieval. Tempo suspenso, mundo suspenso.

A surpresa vem ao se descobrir a quantidade de instalações modernas, como anfiteatros (um grande e outro, um pouco menor), uma piscina pública de tamanho e qualidade olímpicos, e restaurantes maravihosos, todos disfarçados em suas fachadas de casinhas brancas e pequenas, como nos idos tempos. 

A ‘língua oficial’ do evento são quatro: espanhol, português, inglês e francês. Mas, na verdade, o idioma oficial é a criatividade externada na expressão corporal, mais no gesto e no movimento sugerido do que na palavra e na fala, de modo que sempre se pode desfrutar o que está sendo comunicado, já que não verbal. 

As mulheres são de diversas nacionalidades, de todas as idades adultas imagináveis, com experiências de vida as mais variadas. Desde ciganas (literalmente!) até funcionárias de escritório na burocracia estatal de Bruxelas, todas parecem emergir aqui com uma contribuição única, individual, autêntica, para uma festa criativa que dificilmente tem contraparte semelhante em outros países. Todas, sem exceção, absolutamente lindas. 

Novamente chama a atenção, como ocorre com frequência neste tipo de evento, a absoluta carência de homens. Somos talvez uns 6 ou 7, em total de mais de 70 mulheres. Assim, nos workshops e palestras, a presença feminina é dominante, com ampla folga. Em sua palestra na manhã desta 6ª-feira, 22/07, Michel Rahji, co-organizador e parceiro de Yumma, ressaltou este ponto, acrescentando ainda que a maioria dos homens aqui presentes veio – como foi o meu caso – por meio de sua parceira, pois, caso contrário, dificilmente viria para um evento intitulado “Danza Duende”, que parece ter muito pouco – talvez nenhum? – apelo ao masculino nestes tempos atuais.

Nestas horas, uma pequena aparição do masculino chama a atenção e causa destaque, como na noite de ontem, quando os quatro representantes do coral local se juntaram aos grupo de mulheres que fazia uma celebração aos quatro elementos e presentearam o grupo com canções típicas de Serpa, com um misto de presença e inocência perdida que tocou a todos os participantes. 

O feminino está crescendo, se ampliando, expandindo os horizontes perceptíveis, não apenas nestes espaços mais “óbvios”, como da dança, da arte e da criatividade, mas também no mundo corporativo. Cada vez mais, as mulheres estão ocupando espaços antes reservados aos homens, das atividades em plataformas de petróleo aos board rooms de grandes corporações, sem mencionar o setor público, que já lista grandes líderes de potências globais – Angela, Merkel, Theresa May, Hillary Clinton (?). 

Essa mudança é obviamente positiva – nunca é demais estressar este ponto – mas deve ser agora acompanhada também de uma expansão do masculino – literalmente, da presença masculina – nos encontros que ainda são “tipicamente” do feminino, como este Danza Duende aqui em Serpa.

É hora de os homens acordarem para este fenômeno e aprenderem a se abrir para o feminino – em si mesmos e nos outros – e descobrirem novos elementos de sua própria psiquê, a fim de avançarem um pouquinho mais depressa do que neste momento, para alcançarem suas parceiras – atuais ou futuras – nessa caminhada em direção a um viver mais íntegro, mais integrado e mais equilibrado com o mundo a nossa volta. 

Talvez seja somente quando nós, homens, estivermos prontos para darmos este passo derradeiro, que o mundo possa emergir coletivamente de um ethos ainda dominantemente masculino/machista, especialmente no mundo corporativo, e que o planeta possa enfim transitar para uma etapa mais equilibrada, em que a Grande Mãe – Natureza, “Ela”, a “Big She” – seja a orientadora de nossas ações cotidianas. 

Se isso levar menos de 100 anos, talvez ainda tenhamos chance de sobreviver neste planetinha Terra. 

  1. Yumma

    so agora descubro este magnífico artigo !! é tão verdade tudo o que você fala que vejo neste artigo exactamente a palavra concisa e muito concreta de um homem, a única pessoa que fala , conta descreve o evento. nós mulheres criamos o evento é o projecto mas você sabe dizer o que o mundo precisa de ouvir . Pessoalmente sou muito importância a este artigo porque é simbólico do que vem completar a nossa oferenda : uma visão profunda e uma palavra acertada sobre a dinâmica que buscamos generar. muita ngratitude Ajhanti , amigo !

    • ahanti

      Gracias, Yumma! Foi uma honra ter participado de um evento tão especial. E o artigo foi escrito antes de ver sua performance com Rahji, que me tocou de uma maneira indescritível… Continuem esse lindo (e necessário!) trabalho! Lots of love, a.

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