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O valor da ayahuasca (e outras experiências de pico)

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Decidi escrever esta coluna depois de muito questionamento em meus grupos de homens sobre experiências com a ayahuasca e outras substâncias alteradoras de consciência – incluindo aqui a maconha e o álcool. Sei que estou correndo o risco de ofender muita gente, especialmente depois de o culto à raiz amazônica ter se disseminado tanto nos últimos anos, em todos os tipos de comunidades assim chamadas ‘espirituais’ ou de ‘buscadores’. Em todo caso, é útil avaliarmos o papel da ayahuasca e de outras substâncias capazes de causar o fenômeno comum das “experiências de pico” no caminho espiritual.

O uso da ayahuasca (também chamada de hoascaiagê, daime, Santo Daime, ou vegetal) é antigo e remete à Amazônia peruana, com os primeiros relatos conhecidos remontando à invasão espanhola no século XVI, sendo os primeiros documentos escritos por jesuítas a partir de 1737, referindo-se ao seu uso para “adivinhação, mistificação e enfeitiçamento”. Considerada o ‘cipó do espírito’, a bebida é uma combinação da videira Banisteriopsis caapi com as plantas Psychotria viridis (‘chacrona’) e Diplopterys cabrerana (‘chaliponga’) e estima-se o início de seu uso pelos indígenas americanos entre 1500 e 2000 a.C.

Recentemente, sua expansão tem a ver com o crescimento de uma vertente da busca espiritual através do caminho das plantas e da conexão com a natureza, sendo os movimentos religiosos associados à planta mais significativos e conhecidos no Brasil o Santo Daime (1930), a União do Vegetal (1961) e a Barquinha (1945). Estas práticas modernas podem ser consideradas uma parte daquilo que chamamos latu sensu de xamanismo, ou caminho xamânico, associado aos poderes curadores dos pajés na tribos ancestrais.

Me interessa falar aqui sobre os efeitos psicotrópicos destas “drogas naturais” e seu papel na busca espiritual e no caminho do despertar.

Em primeiro lugar, alguns pesquisadores defendem uma distinção entre o que se chama de ‘alucinógenos’ (ou ‘psicodélicos’) e as substâncias enteógenas, ou enteogênicas. Estas estariam associadas a toda a substância capaz de produzir um estado alterado de consciência que induz ao ‘êxtase’ ou ao ‘estado xamânico’, enquanto as primeiras seriam mais adequadas para a classificação das drogas recreativas, como o LSD, o MDMA (ecstasy), a cannabis e o álcool. No entanto, esta distinção tem menos a ver com uma questão técnica, no sentido da farmacologia destas substâncias, e deve, na verdade, ser compreendida a partir do contexto de uso de uma e outra. Assim, as substâncias seriam consideradas enteógenas quando utilizadas em um contexto cerimonial, sagrado, ritualístico, ao passo que o uso lúdico caracterizaria a substância como psicodélica ou alucinógena.

De modo geral, a ayahuasca – e diversos de seus ‘primos’, como o peiote, o San Pedro e, numa versão mais corriqueira e (des)espiritualizada, a própria maconha e o LSD – tem o potencial de produzir o que chamamos tecnicamente de “experiência de pico”: um efeito psicológico de “vislumbre” de uma outra dimensão ou aspecto da realidade, inacessível na ausência da substância, e que para muitos se configura em sua primeira experiência de desvelamento da realidade objetiva, concreta, em “algo a mais” do que aquilo que se constata com a aplicação dos cinco sentidos nas atividades cotidianas. Muitas vezes, estas experiências acabam também sendo batizadas de “experiência mística” ou “experiência espiritual”.

Uma experiência de pico tem, assim, a capacidade de despertar no indivíduo a assim chamada “busca espiritual”: o movimento inquieto e incessante de reconexão com este “algo mais”, seja lá como for individualmente definido. Alguns o chamarão de reconexão com o ‘Divino’, com ‘Deus’ (qualquer que seja a acepção desta palavra para você, leitor), com o ‘Além’, enfim, com qualquer aspecto mágico da realidade, não manifesto na nua e crua experiência perceptível, cotidiana.

Assim, passar por uma experiência de pico pode ser, para muitas pessoas, a primeira e única forma de reconhecer um sentimento de transcendência do ego, da personalidade, da realidade limitada pela apreensão mental do mundo à sua volta e das correlações imaginárias a partir daí geradas. Ao assim fazê-lo, teria o inestimável efeito de iniciar o indivíduo na busca espiritual: uma busca de si mesmo, de seu Eu-profundo, de auto-conhecimento e de conexão mais íntima com a realidade e o mundo à sua volta. (E aqui se abre um leque de opções tão variadas quanto o número de habitantes no planeta, já que não há um caminho, nem uma vida individual, idêntica à outra).

O problema surge quando o indivíduo confunde a experiência de pico com algo que somente lhe pode ser proporcionado pela substância, ou seja, algo externo ao seu organismo e do qual ele passa a ter necessidade para atingir os picos ‘espirituais’ experimentados. Começam aí os fenômenos e movimentos religiosos associados ao culto da planta, em suas diversas ramificações, com as implicações usuais de substituir um trabalho de auto-investigação por um ritual exaustivamente repetido, muitas vezes apenas na tentativa, às vezes frustrada, de reproduzir uma experiência de pico passada, ou de obter novos ‘vislumbres’, sem qualquer efeito de melhoria na sua capacidade auto-reflexiva, na consciência de si mesmo e de sua não-separação com o universo.

Prefiro uma definição mais simples de ‘experiência espiritual’: é tudo aquilo que remove as barreiras e os impedimentos para a percepção de sua real conexão com tudo e todos, sem restrições. Os indianos falam do despertar como a remoção dos véus de Maya (= ilusão) e o entendimento de sua real existência não-separada do Todo. E para isso, nenhuma substância é necessária.

No tipo de trabalho meditativo que realizo – tanto nos grupos de homens, como nos grupos mistos – o uso de qualquer tipo de substância alteradora de consciência é em geral evitado, por diversas razões.

Em primeiro lugar (e mais importante), a própria experiência de realizar uma atividade de meditação ativa (com o corpo em movimento) pode, muitas vezes, já ser “demais” no sentido de trazer à tona para a superfície da consciência os temas e traumas emocionais que são despertados por estas práticas. Desse modo, adicionar a estas técnicas um psicotrópico pode levar indivíduos com tendência a um comportamento tipo ‘borderline’ a um surto psicótico induzido, produzindo assim o efeito contrário ao objetivo das meditações ativas, que é o de despertar para uma vida mais consciente, plena e realizada.

Em segundo lugar, há o tema da dependência: a natural tendência psicológica de atribuir à substância a única ‘chave’ responsável pela experiência mística ou espiritual, levando assim à necessidade de apego ao uso da substância, seja ela qual for, e seja qual for o contexto de ‘cura’ ou ritual a ela associado.

Veja, não sou contra o uso da ayahuasca ou de qualquer outra substância no caminho de busca, pelo contrário! Acho mesmo que, exceto nos casos de risco psicológico ou de contra-recomendação médica já comentados, todo mundo deveria experimentar para ter suas próprias referências sobre estas plantas medicinais. No entanto, o culto à planta é completamente desnecessário para a sua realização espiritual. É possível obter as mesmas experiências de não-separação, de dissolução da identificação com seu ego e com a estrutura de sua personalidade sem adição de qualquer substância, apenas com as práticas meditativas adequadas.

O sagrado é realmente isso: despertar para a sua verdadeira natureza. Você já é aquilo que você procura. Apenas relaxe e perceba. O resto é firula.

Ao fim e ao cabo, nem que seja somente por precaução, melhor voltar para a velha, boa e essencial água fresca…

“Free Men Weekend”, com David Deida

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Entre os dias 28 e 30 de outubro, 100 homens se reuniram em Highlands, North Carolina, para um retiro com meu professor David Deida. Momento único, já que David estava há mais de dez anos sem realizar um grupo específico para homens, tendo passado essa década praticamente recluso durante em média onze meses por ano, saindo da toca apenas para alguns poucos finais de semana de palestras e grupos mistos. Um fenômeno novo parece ter sido o principal motivador de sua ‘re-emergência’ deste longo período de retiro. Mas falo sobre isso mais adiante. Primeiro, ao grupo.

A experiência de conviver intensamente com um grupo, em primeiro lugar, tão grande, e, sem segundo, com tipos dos mais diferentes backgrounds, foi muito forte! Nos encontramos no aeroporto de Atlanta, na manhã de sexta-feira 28, vindos de várias partes do mundo. Havia homens do Canadá, Itália, Inglaterra, Alemanha, Leste Europeu, e, claro, de diversos estados norte-americanos. Do Brasil, somente eu e outro conterrâneo, que foi criado na Nova Zelândia e mora atualmente a Itália. A faixa etária variava de 25 a 72, com os mais variados interesses e profissões, mas muitos no grupo eram terapeutas e líderes de grupos de homens, interessados em se reconectarem com David. Muitos estariam com ele pela primeira vez.

O local foi muito próprio para este tipo de evento, um resort nas montanhas da Carolina do Norte, cerca de três horas de carro a partir do aeroporto de Atlanta. Acomodações em cabines de 2 a 8 pessoas, muita natureza e ar puro para nos revigorar, e uma comida ótima apoiavam o intenso trabalho que fizemos ali.

Por conta do elevado número de homens, os encontros com David – que aconteciam sempre à tarde e à noite – eram em um auditório, com cadeiras em duas seções ao longo do salão, e o formato destas sessões eram essencialmente de “pergunta-e-resposta” após uma fala inicial de David, com um espaço limitado para uma interação mais pessoal. Durante as manhãs de sábado e domingo, trabalhávamos diversos exercícios físicos e de respiração, com o apoio do grupo de 4 assistentes.

Como meu foco era estar com ele, chegava sempre bem cedo para pegar lugar na primeira fila. Por conta disso, tive a ‘sorte’ de subir ao palco junto com outros dois homens para um exercício mais focado e específico, tendo o privilégio de interagir com ele mais diretamente e, especialmente, de receber feedback direto do grupo de 100 homens, o que é SEMPRE muito útil. Exatamente o que eu buscava ali! (Não vou detalhar aqui, mas o feedback que recebi do grupo foi extremamente positivo e apenas confirma que minha prática está alinhada e na direção correta.)

Independentemente do histórico pessoal e das preferências de cada um, as questões que cada um trazia eram sempre relevantes para o grupo como um todo. Como identificar seu propósito? Como alinhar suas atividades diárias com este propósito? Como lidar com o trabalho, o mundo e seus relacionamentos? Como melhorar sua vida sexual, sua relação íntima? Enfim, os temas inquietantes do masculino moderno.

O mais interessante foi notar – depois de ter estado com ele pela última vez há 11 anos – que David está emergindo com seu trabalho a partir de um lugar mais profundo, de maior consciência, de maior presença, visivelmente resultado deste longo período de quase isolamento meditativo. Assim, mesmo tratando de temas mais ‘mundanos’, como relacionamento, carreira, mulheres, etc., ele sempre ‘aponta’ para o transcendente, o assim-chamado ‘lado espiritual’, sempre nos remetendo de volta à nossa condição original de não-separação, de união com tudo e todos. Minha impressão é que muitos não percebem isso, pois ainda estão ‘identificados’ ou envolvidos com suas questões mais pessoais, o que reduz a capacidade individual de apreender o quadro mais completo que há por trás de todo o movimento, o canvas de consciência onde tudo acontece. Há às vezes uma confusão entre o ‘dedo’ e a Lua para a qual o dedo aponta, na metáfora sufi.

De qualquer forma, as práticas foram intensas e transformadoras, para muitos dos homens ali presentes. Já na primeira noite, David encerrou os trabalhos trazendo ‘Spectra’, uma linda e jovem aluna sua, que se postou no palco enquanto os 100 homens exercitavam técnicas de respiração e presença, com o intuito de ‘abrir’ o Feminino. Spectra tem uma prática muito consistente de ioga sexual, e seu corpo se movia e respondia imediatamente de acordo com a profundidade do grupo de homens à sua frente. Era um exercício curto – algo de, no máximo, cinco a dez minutos – mas intenso, pelo qual ELA refletia diretamente a nossa capacidade estarmos mais presentes através da respiração e de outros exercícios que David nos mostrou. Difícil descrever em palavras um momento de êxtase de parte a parte, no qual uma jovem completamente vestida e um bando de homens respirando podem experimentar uma intimidade e um encontro único de modo tão intenso e raro, o que reflete o quão especial é esta prática. O exercício se repetiu a cada noite e de modo cada vez mais profundo, à medida que o grupo avançava no domínio de certas técnicas de respiração e presença, e Spectra podia refletir para nós o grau de maturidade e abertura do grupo.

No último jantar, antes da sessão de encerramento com Deida, tivemos um exercício de “3º estágio” (veja coluna sobre o tema aqui) entre os homens, no qual cada participante tinha que identificar outro homem para o qual fosse possível oferecer algo e abri-lo para o 3º estágio, e assim sucessivamente. Podia ser algo simples, do tipo “preciso que você alinhe sua coluna e respire mais profundamente” até coisas mais criativas e interessantes que foram acontecendo durante aquela uma hora de exercício. O nível de presença e a intensidade da abertura na sala quase ao final do exercício eram inacreditáveis! Como é possível estarmos sempre mais abertos e alertas, servindo um ao outro e ao mundo à nossa volta de modo muito mais intenso do que o nosso ‘nível habitual’ de convivência civilizada nos permite! Precisamos ousar, mas com consciência e sensibilidade!

Enfim, o grupo foi muito rico, cada homem ali contribuiu com o coletivo, dentro das suas possibilidades e apesar das dificuldades de cada um, com uma genuína disposição para estar presente e oferecer o melhor de si para o grupo. Uma experiência única de reconexão com o masculino sagrado, do qual o mundo moderno está tão carente. Foi revigorante para mim e uma experiência especial para quem estava com David pela primeira vez. Depois do retorno, hoje os homens se mantém conectados diariamente através de um grupo online fechado, e a continuidade da aplicação das práticas tem sido visível e transformadora.

Por fim, comento o que Deida compartilhou conosco como um dos motivadores para ele ‘sair da toca’ e voltar a compartilhar e treinar pessoas em seu método de trabalho. O recente fenômeno do ‘burning man‘ – eventos que são como uma grande festa rave, com a diferença de que ali se levam instalações artísticas que serão queimadas (daí o nome) no final do evento – está se espalhando pelos Estados Unidos e tem se revelado, na leitura dele, uma bela expansão do Feminino: todos se maquiam, pintam o corpo, tomam êxtase e dançam e celebram livremente, sem limites e com o propósito explícito de se abrirem para o feminino em cada um. E aqui ele enxergou uma nova possibilidade: o burning man é um movimento saudável em direção ao 2º estágio, com uma nova abertura para o feminino (em homens e mulheres, veja bem!) e seus atributos mais elevados. No entanto, sabemos que este ainda não é o ‘estágio final’, e aqui David enxergou uma possibilidade nova, de treinar um grupo de praticantes de ioga sexual para levarem estrutura (= masculino!) para a abertura (já existente) no burning man e, assim, criarem um legítimo festival de 3º estágio! A experiência ainda está em seus estágios iniciais, de formação do tal grupo de praticantes. Ficarei de olho no que vai resultar e compartilharei por aqui! Fica o convite! Bora lá!

Por enquanto, os próximos passos são: Tiffani e eu fomos selecionados para o exclusivo retiro de final de ano com o Deida na Flórida, um intensivo de três dias de prática, para apenas 14 casais. Estamos animados, nos preparando para o evento, e voltaremos inspirados para darmos o Retiro de Carnaval no Tao Tien, em fevereiro de 2017.
(Veja maiores informações aqui).

Aho!

“Danza Duende” – Remarks from a male perspective

by Ahanti Camarano

(Traduzido a pedido)
I wrote these notes from Serpa, Portugal, during the 3rd Danza Duende International Festival. Created by Yumma Mudra, a French-American witch-gypsy-dancer, the ‘Duende’ is really a delightful party of the feminine energies, expressed in an explosion of creativity that pervades this peaceful mediavel town’s deserted streets, close to the Spanish border in the Andaluzian region.

I came here through the invitation received by my wife, Tiffani Gyatso, to offer her “Slow Art” workshop as part of the event’s program. We took advantage of our planned vacations on a rented RV through Spain and Portugal, and put it all together. And what a surprise to arrive at this stronghold of art and creativity in the middle of the Portuguese ‘Alentejo’. 
The Festival is organized around the so-called ‘duende’, the creative ‘spirit’ behind eveything that takes place here, developed into a system and a school of creation by Yumma Mudra – and that I barely begin to understand while observing the activities and performances in Serpa. 
For five days, the city is fully dedicated to the event, with accommodations and local restaurants overflooded by the (majority of) women that come here to improve their expression in the ‘duende’, to share their works of art, to teach, comingle, create, laugh and cry together. In a word, to touch and open all and everything around them.
The city itself has an interesting story, earning its name from a serpent-dragon (“Serpa”) which – in ancient times – was supposed to show up in critical moments to help and support the local population, or to save them from external threats, like an enemy attack. 
Curiously, the city was kept (or so it seems to!) as it was a long time ago, with stone-paved streets, and its low, small white houses, and a wall marking the aqueduct and former castle that once defended the medieval town. Suspended time, suspended world.
One will be surprised to find the amount of modern facilities the city has to offer, like the two theaters, a high-quality public swimming-pool, plus the wonderful restaurants, all of it disguised behind old-aged white facades. 
The event has four ‘official’ languages: English, Spanish, French and Portuguese. But, in truth, the official language is that of creativity expressed through the body, the gesture and the movement, more than any spoken word, so that one can always enjoy what is being communicated, since it’s non-verbal. 
Women come from several countries, ages, and backgrounds. You can find from real gypsies (literally!) to high-level Brussels state bureocracy executives, all emerging here with their own unique, authentic contribution to this creative party that probably has no similar throughout the world. All of them absolutely gorgeous, with no exceptions.
Once again, I’m taken aback by the sheer absence of men in events of this kind. We are maybe 6 or 7 among 70+ women, whose presence dominate, with large margin, the masculine one. In his lecture on Friday morning, July 22nd, Michel Rahji, Yumma’s partner and co-organizer of the event, emphasized this point, saying also that most men present here came to the festival through their wives/partners, as it was in my case. Very seldom an event on the ‘Danza Duende’ will be an attractor for men these days.
In times like these, a small participation from the masculine side catches everyone’s attention, like yesterday’s evening, when four representatives of the local choir joined the group of women who were celebrating the four elements, and offered typical Serpa’s songs to enliven our night, in a rare combination of lost innocence and presence that touched all the participants. 
The feminine is growing, spreading itself, expanding the perceivable horizons, and not only in the more ‘obvious’ spaces, like in dance, arts, and creativity, but also in the corporate world. More and more, women are occupying spaces formerly reserved to men, from oil rigs to large corporations board rooms, not to mention the public sphere, where we can already find great women leaders – Angela Merkel, Theresa May, Hillary Clinton (?).
This is obviously a positive change – it’s never too much stressing this point – that must also be followed now by an expansion of the masculine, i.e., of the male presence in these so-called ‘typically feminine’ meetings, like this Danza Duende here in Serpa.
It’s about time for men to wake up to what is happening and begin opening themselves to the feminine aspect – within themselves and in others –, and to discover new elements of their own psyche, in order to catch-up with what their female partners are doing, so that they could walk together towards a more integral, more integrated, and more balanced way of living. 
Maybe it is only when we, men, find ourselves ready to embrace this last step that the world might collectively raise from a predominantly male chauvinistic ethos – most noticeably in the corporate sphere – and the planet could move towards a more balanced stage, where the Great Mother – Nature, the big “She” – becomes the guide to our daily actions. 
Should this movement take less then 100 years, then we might have a chance of surviving in this little Planet Earth of ours.

“Danza Duende”: uma visão do masculino no coração do feminino

Escrevo estas notas aqui de Serpa, Portugal, onde acontece a 3ª edição do “Festival Internacional de Dança Duende”. Criado por Yumma Mudra, uma franco-americana, cigana-bruxa, dançarina-artista e cidadã do mundo, o festival é literalmente uma festa, um deleite, do feminino, numa explosão criativa que toma conta das desertas ruas desta pacata cidade medieval próxima à fronteira com a região espanhola da Andaluzia. 
Vim parar aqui por intermédio do convite recebido por minha esposa, Tiffani Gyatso, para oferecer seu workshop “Slow Art” como parte da programação do evento. Aproveitamos o plano de férias com um motorhome alugado na Andaluzia e Portugal e encaixamos uma coisa na outra. E que grata surpresa chegar a este reduto de arte no meio do Alentejo português.

O festival se organiza em torno do assim chamado “duende”, o “espírito” criativo por trás de tudo o que acontece aqui, sistematizado e desenvolvido em uma escola de criação por Yumma Mudra, e que apenas começo a compreender por observação em nossa curta estadia em Serpa. 

Durante cinco dias, a cidade fica praticamente dedicada ao evento, com as acomodações e restaurantes locais tomados pelas mulheres (imensa maioria) que aqui vêem para aperfeiçoar sua expressão no ‘duende’, compartilhar seu trabalho, ensinar, conviver, criar, rir e chorar. Essencialmente, tocar e abrir tudo e todos à sua volta. 

A cidade tem uma história interessante, cujo nome provém de um mito do dragão-serpente (‘Serpa’) que, em idos tempos, alegadamente surgia em tempos de necessidade premente da população do vilarejo medieval, para salvar seus cidadãos de ameaças externas, como um ataque inimigo, ou algo semelhante. 

Curiosamente, a cidade manteve-se (assim parece!) como há muito tempo, com suas ruas calçadas de pedras grandes e irregulares, casas pequenas e baixas, praticamente todas brancas como cal, com uma grande muralha e aqueduto ainda demarcando o ‘castelo’ que fortificava a antiga cidadela medieval. Tempo suspenso, mundo suspenso.

A surpresa vem ao se descobrir a quantidade de instalações modernas, como anfiteatros (um grande e outro, um pouco menor), uma piscina pública de tamanho e qualidade olímpicos, e restaurantes maravihosos, todos disfarçados em suas fachadas de casinhas brancas e pequenas, como nos idos tempos. 

A ‘língua oficial’ do evento são quatro: espanhol, português, inglês e francês. Mas, na verdade, o idioma oficial é a criatividade externada na expressão corporal, mais no gesto e no movimento sugerido do que na palavra e na fala, de modo que sempre se pode desfrutar o que está sendo comunicado, já que não verbal. 

As mulheres são de diversas nacionalidades, de todas as idades adultas imagináveis, com experiências de vida as mais variadas. Desde ciganas (literalmente!) até funcionárias de escritório na burocracia estatal de Bruxelas, todas parecem emergir aqui com uma contribuição única, individual, autêntica, para uma festa criativa que dificilmente tem contraparte semelhante em outros países. Todas, sem exceção, absolutamente lindas. 

Novamente chama a atenção, como ocorre com frequência neste tipo de evento, a absoluta carência de homens. Somos talvez uns 6 ou 7, em total de mais de 70 mulheres. Assim, nos workshops e palestras, a presença feminina é dominante, com ampla folga. Em sua palestra na manhã desta 6ª-feira, 22/07, Michel Rahji, co-organizador e parceiro de Yumma, ressaltou este ponto, acrescentando ainda que a maioria dos homens aqui presentes veio – como foi o meu caso – por meio de sua parceira, pois, caso contrário, dificilmente viria para um evento intitulado “Danza Duende”, que parece ter muito pouco – talvez nenhum? – apelo ao masculino nestes tempos atuais.

Nestas horas, uma pequena aparição do masculino chama a atenção e causa destaque, como na noite de ontem, quando os quatro representantes do coral local se juntaram aos grupo de mulheres que fazia uma celebração aos quatro elementos e presentearam o grupo com canções típicas de Serpa, com um misto de presença e inocência perdida que tocou a todos os participantes. 

O feminino está crescendo, se ampliando, expandindo os horizontes perceptíveis, não apenas nestes espaços mais “óbvios”, como da dança, da arte e da criatividade, mas também no mundo corporativo. Cada vez mais, as mulheres estão ocupando espaços antes reservados aos homens, das atividades em plataformas de petróleo aos board rooms de grandes corporações, sem mencionar o setor público, que já lista grandes líderes de potências globais – Angela, Merkel, Theresa May, Hillary Clinton (?). 

Essa mudança é obviamente positiva – nunca é demais estressar este ponto – mas deve ser agora acompanhada também de uma expansão do masculino – literalmente, da presença masculina – nos encontros que ainda são “tipicamente” do feminino, como este Danza Duende aqui em Serpa.

É hora de os homens acordarem para este fenômeno e aprenderem a se abrir para o feminino – em si mesmos e nos outros – e descobrirem novos elementos de sua própria psiquê, a fim de avançarem um pouquinho mais depressa do que neste momento, para alcançarem suas parceiras – atuais ou futuras – nessa caminhada em direção a um viver mais íntegro, mais integrado e mais equilibrado com o mundo a nossa volta. 

Talvez seja somente quando nós, homens, estivermos prontos para darmos este passo derradeiro, que o mundo possa emergir coletivamente de um ethos ainda dominantemente masculino/machista, especialmente no mundo corporativo, e que o planeta possa enfim transitar para uma etapa mais equilibrada, em que a Grande Mãe – Natureza, “Ela”, a “Big She” – seja a orientadora de nossas ações cotidianas. 

Se isso levar menos de 100 anos, talvez ainda tenhamos chance de sobreviver neste planetinha Terra. 

Feminino equivocado – ou, “De como eu me achava masculina!”

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Neste feriado de Carnaval, recebemos no Retiro Tao Tien um grupo muito dinâmico e interessante de homens e mulheres interessados em se investigar sob a lupa do masculino e do feminino sagrados.

Embora eu talvez possa dizer que todos foram de alguma forma tocados pela vivência que fizemos lá, aproveito o espaço aqui no blog para mencionar um tema que me chamou particularmente a atenção, pois apareceu para quase metade das mulheres participantes e pelo menos um dos homens: a noção (ou o “pré-conceito”) de que a sua essência sexual era polarizada no outro gênero. Ou seja, estas mulheres chegaram ao workshop com a certeza de que suas essências eram completamente masculinas, ao passo que um dos homens tinha certeza de que era “muito feminino”. (Note que isso não tem nada a ver com a orientação sexual destas pessoas, que eram heterossexuais em todos estes casos.)

Começo pelas mulheres, já que o foco da coluna de hoje é o feminino. Ao longo dos quatro dias de trabalho, foi lindo observar cada uma delas entrando em contato com sua essência e se descobrindo absolutamente femininas, em alguns casos extremamente femininas, na “ponta” da escala de polaridade que vai do feminino extremo ao masculino extremo, com um ponto “neutro” no centro. Mas não foi esse o ponto principal. A questão central foi a surpresa de todas elas ao se descobrirem femininas e, em alguns casos, muito femininas.

Refletindo sobre o tema em uma das sessões, nos demos conta de que parte dessa surpresa decorre de um mal entendido básico acerca da natureza essencial do feminino. Praticamente todas estas mulheres compartilhavam uma visão comum do feminino como algo “frágil”, “indefeso”, “inferior”, e, assim, rejeitavam a possibilidade de serem elas mesmas reduzidas a isso. Sem dúvida, essa opinião comum a mulheres com diferentes experiências de vida e que não se conheciam fala muito sobre a educação e um certo ethos do brasileiro na sua relação com o feminino.

Infelizmente, vivemos em um país de 1º estágio, no qual o condicionamento social ainda é tal que o homem é educado como ser superior e treinado a tratar a mulher como objeto de seu prazer através de milhares de horas de “Show da Xuxa”, “Programa do Faustão” e Valescas Popozudas que abundam nos meios de comunicação de massa, bombardeando nossas crianças desde a mais tenra idade com imagens absolutamente inadequadas de precoce sensualização.

Na vida adulta, a superexposição do corpo – especialmente o feminino – e a exagerada valorização de um certo tipo de beleza – que, para desespero das mulheres que ansiosamente o perseguem, muda ao sabor dos ditames dos czares da moda – impõem uma frustração generalizada nas mulheres (e, em menor grau, nos homens), que fazem de tudo para se aproximar do tal “padrão”, sem contudo jamais chegarem lá. Talvez seja essa dupla combinação de sensualização precoce com superexposição de um certo padrão de corpo feminino que torna o Brasil um dos campeões mundiais de cirurgias plásticas. Infeliz estatística.

Em um mundo desses, não é de se estranhar que as mulheres acabem por se distanciar e mesmo rejeitar esse feminino que foi “ensinado” aos meninos e meninas desde tenra idade, identificando-se assim – erroneamente – com o masculino, ou com aquilo que acreditam ser o masculino, em si mesmas. “Sempre me achei masculina”, “gosto de fazer coisa de homem, tomar cerveja com as amigas no bar”, “sempre soube o que quis fazer e vou atrás dos meus objetivos”, foram algumas das frases mencionadas no final de semana por estas mulheres, como exemplos de sua “masculinidade”.

No entanto, confrontadas com uma visão mais profunda e generosa do feminino, segundo a qual o feminino é a própria energia da vida, aquilo que move a natureza, o clima, os humores, as mudanças de textura de cada ambiente, variando e mudando de forma a cada instante, enfim, com um feminino entendido como a própria energia do Universo, ilimitada, todas estas mulheres puderam experimentar – talvez pela primeira vez – o prazer de relaxar neste feminino amplo, ilimitado, impossível de ser contido, forte e suave ao mesmo tempo, e puderam permitir que seus corpos se movessem a partir desta energia interior recém descoberta. Assim, identificaram corretamente sua essência sexual como feminina, e não mais como erroneamente masculina, como acreditavam inicialmente.

Os “efeitos colaterais” dessa descoberta foram visíveis: risos, lágrimas, expressões faciais mais suaves, percepção de estarem mais presentes em seus próprios corpos, sensação do corpo mais aberto e relaxado, de modo que todas “brilhavam” já no meio do andamento dos trabalhos. Incrível o resultado que a simples apresentação do feminino sob um conceito mais correto e generoso de suas qualidades, aliada a e apoiada por um conjunto simples de práticas de respiração e outras práticas físicas, provocou em todas as mulheres que frequentaram este workshop de Carnaval. Um presente único para cada uma delas, bem como para os homens que testemunharam o processo.

Para encerrar, vale mencionar também a experiência de um dos homens ali presentes. Caso típico de criação com pai (= figura masculina) ausente, ele se percebia – erroneamente – como “muito feminino” e ficou extremamente surpreso ao ouvir o feedback das mulheres do grupo, que, em consenso, afirmaram perceber sua essência bastante masculina, inclusive com o depoimento de sua amiga de infância que o acompanhou ao workshop, afirmando que “sempre se sentiu ‘segura’ ao lado dele, por causa de sua presença masculina”. Essa já era minha opinião na entrevista de seleção para o grupo, mas sempre o impacto é muito maior de ouvir isso de todas as mulheres participantes.

Enfim, muito aprendizado em um curto espaço de tempo. Agora, meus votos de que cada uma delas (e deles!) se mova no mundo a partir desta nova realização.

Aho!

Uma nota sobre “Function, Flow and Glow”, de David Deida

Function, Flow & Glow cover

Numa interessante palestra em 2004 no Integral Institute, de Ken Wilber, David Deida ofereceu uma valiosa contribuição para a solução de um equívoco muito comum entre os assim chamados “buscadores espirituais”: as diferenças entre terapia – ioga – espiritualidade.

Nós vamos trabalhar esse tema daqui a algumas semanas no retiro de carnaval, por isso antecipo aqui alguns dos conceitos que serão úteis, não só para os participantes como para o público mais amplo.

Na minha experiência, comunidades espirituais costumam demonstrar preconceito com terapias em geral. No entanto, isso decorre de um mal entendido sobre os objetivos, o alcance e as formas de uma e de outra.

Terapia tem a ver com consertar aquilo que está quebrado — “ferido”, “partido” — em sua psiquê, de modo a melhorar a sua capacidade de funcionar no mundo. Desse modo, tem a ver com a “função”.

Ioga tem a ver, por outro lado, com a capacidade que o seu corpo tem de absorver, circular e devolver energia vital para o mundo à sua volta. Assim, são práticas físicas que ampliam o seu fluxo de energia, em todas as suas expressões.

Espiritualidade, por sua vez, consiste simplesmente em reconhecer a sua real natureza e a natureza de todas as coisas como uma só consciência, uma só luz, um mesmo Ser. Pessoas que experimentam estes (em geral, raros!) momentos, têm um certo brilho característico. Daí a expressão “glow” a que Deida se refere.

David usa uma imagem interessante para ilustrar esse ponto.

Imagine que você é como uma vidraça. E que se dá conta de que está quebrada. Fazer terapia significa “colar os cacos” de volta na vidraça, com o objetivo de torná-la novamente “inteira”. Assim, ela volta a funcionar como vidraça.

Na mesma situação, fazer ioga consistiria em “tirar a poeira” da vidraça, permitindo que passe mais luz através dela, mesmo continuando quebrada! Assim, tem a ver com o fluxo de energia/luz que passa através dela, mas sem alterar a sua estrutura.

A espiritualidade, por outro lado, significa reconhecer-se como a própria luz que passa pela vidraça, esteja ela quebrada ou empoeirada. Saber que você é a própria luz elimina qualquer necessidade de consertar ou limpar a vidraça… Do ponto de vista da “luz”, essas duas ações sequer fazem sentido, pois não alteram a natureza essencial da luz em si.

E é aqui que a coisa pega!

Se a metáfora acima já estiver clara, então você já entendeu as implicações deste raciocínio: nenhuma prática, técnica ou atividade tem a capacidade de lhe fazer reconhecer a sua natureza essencial como a própria luz divina. Ou seja, não importa o quanto você faça terapia ou pratique ioga/meditação, nada disso pode te levar a reconhecer a natureza última do Ser, nada disso pode te levar àquilo que muitas tradições chamam de “iluminação”.

(E, se você não estiver convencido deste meu ponto, faça o raciocínio pela negação: se não fosse assim, já haveria um “manual” de técnicas infalíveis para a iluminação. Descartando-se a seção de besteirol de “auto-ajuda espiritual” disponível nas livrarias, não me parece razoável supor que tal manual exista, ou estaríamos todos iluminados… Então…).

Outra conclusão importante deste raciocínio é que estes três “reinos” são completamente separados, como vasos não-comunicantes. Você pode conhecer uma pessoa que se “trabalhou” profundamente em terapia, se conhece em detalhes e que tem plena capacidade de funcionar no mundo em que vive, sem no entanto ter qualquer capacidade de transmitir energia/luz pelo seu corpo ou através de sua presença, nem tem qualquer entendimento de sua natureza mais profunda enquanto expressão da luz divina.

Ao mesmo tempo, há grandes iogues, com extrema capacidade de transmitir energia por sua presença — aquelas pessoas capazes de “abrir a sala” no minuto em que entram na casa — mas completamente incapazes de se relacionar de forma madura com sua esposa e/ou filhos, nem têm qualquer compreensão mais profunda sobre sua natureza divina.

E há ainda, mas em menor número, aqueles seres iluminados, auto-realizados, capazes de habitarem de modo permanente um espaço de absoluta integração com tudo e todos à sua volta, ao mesmo tempo em que não têm qualquer capacidade de transmitir energia através de seus corpos, nem conseguem funcionar minimamente na sociedade, têm problemas com dinheiro, dificuldades de relacionamento com as outras pessoas, etc.

Em suma, se você está interessado em seu desenvolvimento integral, é absolutamente crucial compreender a extensão e os limites das atividades possíveis em cada um destes “reinos” e exercer um trabalho consciente de exploração e aprofundamento nas práticas adequadas para cada uma destas expressões do ser.

E aí, qual a sua prática?

“Abrindo uma mulher” — Atenção homens!

saudade

Considerando a proximidade do nosso retiro de Carnaval no Tao Tien, achei relevante compartilhar um texto da linda professora de tantra Shashi Solluna, que “puxa as orelhas” dos homens e faz um alerta muito importante, do ponto de vista do feminino, sobre a nossa responsabilidade (dos homens) na relação com o feminino em situações de abertura e confiança. E, pensando bem, serve também para os “carnavalescos” de plantão, que vão “pular” um carnaval mais “convencional”…

Segue a coluna, depois eu comento. E, para quem quiser ler em inglês, a versão original:

http://shashisolluna.com/2015/01/16/opening-a-woman/#comment-1709

“Onde quer que eu vá na cena Tântrica, me deparo com o mesmo fenômeno: um bando de homens que proclamam orgulhosamente serem capazes de “abrir as mulheres”. Isso em geral significa que eles estão oferecendo yoni-massagem (massagem sexual) e experiências orgásmicas.

Não me levem a mal: eu acho que um dos melhores aspectos do masculino é o desejo de abrir uma mulher. É fato que, frequentemente, o outro é capaz de nos abrir, mais do que somos capazes de nos abrirmos sozinhas. Isso acontece porque somos capazes de nos rendermos a um outro, ao passo que, por conta própria, sempre há um elemento de manutenção do controle. Assim, esse aspecto do masculino que se delicia em abrir uma mulher pode ser um dom precioso e excelente.

Entretanto, eu gostaria realmente de dizer algo a estes homens.

Abrir uma mulher tem o efeito de deixá-la aberta.

Por favor, pause por um momento para considerar o que você está abrindo. Quando você abre uma mulher sexualmente, a energia dela se move (o orgasmo é um gigantesco movimento de energia sexual no corpo). Quando essa energia se move, ela começa a destruir camadas de proteção e de defesa. Isso é algo muito desejável no caminho tântrico…  nós queremos nos livrar destes velhos padrões de defesa. Mas, à medida que antigas defesas se desfazem, uma profunda vulnerabilidade é exposta.

Quando você abre uma mulher, você está abrindo suas camadas profundas, abrindo seu coração, expondo seu mistério, tirando a tampa da caixa de Pandora.

Ela pode experimentar diversas coisas. Geralmente, uma enorme onda de emoções inexplicáveis. Algumas mulheres choram ou riem durante o orgasmo. Podem haver fluxos tremendos de energia… tremor e arrepios de corpo inteiro.

No entanto, se você, depois de abrir uma mulher, se dá um tapinha nas costas e segue em busca da próxima mulher para abrir, você está abandonando uma mulher completamente aberta e vulnerável.

Vejo com muita frequência homens se empolgarem com sua auto-satisfação, sem qualquer compreensão do efeito que estão causando. Se você realmente deseja estar a serviço de abrir as mulheres, então isso não deve ser para satisfazer ao seu ego. E se você estiver verdadeiramente servindo-a, você estará a serviço de tudo naquela mulher… não somente o orgasmo dela, mas também seus sentimentos, suas energias e tudo o mais que surgir para ela. Você está ali para servir a uma mulher através da criação de um espaço seguro e sagrado para ela.

Desse modo, eu com certeza não estou aqui para diminuir o entusiasmo desses homens bem intencionados. Mas eu quero falar em nome de todas as mulheres que já foram deixadas sentindo-se abertas e em estado puro e não-acolhidas.

Por favor, cuide do sagrado feminino. Por favor, reconheça o seu próprio poder. Por favor, seja responsável por suas ações. Por favor, examine-se… você sabe se está agindo a partir do ego ou a serviço. Por favor, não se engane.

Nós queremos receber seus dons. De verdade. Mas estamos prontas para recebê-los de uma maneira alinhada com a cura e o amor.

Não só isso: o Tao Tantra diz que, se o dom de um homem é o de abrir uma mulher sexualmente, o dom da mulher é o de abrir o coração do homem. Se você apenas permite o aspecto sexual, uma mulher é abandonada sentindo-se incompleta e a interação fica desequilibrada.

Há diversas maneiras de se manter o espaço para uma abertura puramente sexual, como em uma massagem profissional. Mas preste atenção na palavra “profissional”. Os profissionais (em geral) sabem como fazer uma mulher se sentir segura e acolhida em uma sessão, com clareza de limites. Todo o ambiente profissional é por si mesmo um container para que a experiência fique ali.

Então, se você é daqueles que fica pulando de um evento de tantra para o outro, “abrindo as mulheres”, eu te peço que por favor pare e examine-se de forma profunda e honesta. Pergunte para você mesmo se não há uma maneira melhor de faze isso e por favor examine de onde vem a sua motivação. Talvez haja uma maneira melhor de oferecer seus dons…

E, por fim, uma nota do Guruji, Bob Marley: “O maior covarde é o homem que desperta o amor de uma mulher, sem nenhuma intenção de amá-la”.

Obrigada, Bob!”


Meus “2-centavos” sobre a coluna da Shashi:

A arena sexual é sem dúvida um dos campos mais interessantes para se trabalhar as questões psicológicas-espirituais-meditativas, por conta da variada quantidade de “traumas” que acumulamos nessa esfera de nossa vida. Traumas que vem à tona exatamente nos momentos de intimidade e relacionamento. O processo de amadurecimento pessoal exige, assim, que cada um examine seus cantos mais escuros e aprenda a lidar de forma mais consciente com estes aspectos do viver, a fim de construir relações mais maduras e verdadeiras com aqueles à nossa volta.

Nesse sentido, uma experiência de tantra pode capacitar um homem a não apenas superar seus traumas e limitações na arena sexual (pau pequeno? ejaculação precoce? insensibilidade e sensação de inadequação?), como a torná-lo esse tipo de “frequentador de workshops” mencionado por Shashi, ou mesmo, em um nível mais “cotidiano”, o famoso “come-todas” de balada em balada, que procura qualquer coisa menos o compromisso de uma relação íntima.

Compromisso é difícil. Exige trabalho, sobre si (inicialmente) e sobre a própria relação — essa 3ª pessoa, com um “CNPJ” próprio que surge quando dois se relacionam e fazem assim emergir aquilo que há de melhor (ou pior) no outro. Exige paciência. Exige entrega, confiança, tempo, dedicação. Mas não tem jeito, há certas descobertas que somente são possíveis em uma relação íntima. E, aos aventureiros de plantão, meu alerta: não adianta ficar “pulando de galho em galho”, iludindo-se na busca incessante daquilo que você não encontrará no outro, senão em si mesmo. E também não adianta apelar para as formas modernas de “não-compromisso”, como relação aberta / poliamore e variações do tipo…

De novo, quem melhor resolveu esse tema foi o Deida. Ele diz o seguinte: relação aberta pode funcionar para quem já praticou uns 20 anos de relação íntima, dedicada e comprometida, e ainda assim somente faria sentido a migração para uma relação aberta se esse movimento for em serviço de toda a comunidade à sua volta. Portanto, decisão deles, e não sua, para seu onanismo pessoal.

Vambora trabalhar? Boa semana a todos!