Marcado: Bhagwan Shree Rajneesh

Meditações dinâmicas: “desentupindo o cano”

Na coluna anterior, prometi apresentar algumas técnicas para lidar com a sombra e, assim, abrir espaço para o reconhecimento e a integração do silêncio em sua vida. De novo, e como adiantei ao iniciar este blog, procurarei seguir sempre a regra de me basear apenas naquilo que é a minha experiência direta, sem entrar em discussões filosóficas ou conceituais, a menos que absolutamente necessário para ilustrar algum ponto específico do assunto abordado. Isso posto, vamos lá.

Na minha experiência, a maioria das pessoas associa “meditação” a um sujeito sentado em posição de lótus, com a coluna ereta, as mãos posicionadas sobre os joelhos, o polegar puxando o dedo indicador em direção à palma, os demais dedos esticados (também chamado “gyan mudra”), e respirando de acordo com certas regras, dependendo da escola ou doutrina seguida. Nessa versão da prática meditativa, o objetivo do meditador é silenciar a mente. (Eu volto a esse ponto em outra coluna!)

No entanto, e bastante simplificadamente, meditar significa apenas “fundir-se com” o objeto de sua meditação. Nesse sentido, meditamos quase todo o tempo, mesmo que inconscientemente. Assim, aquele momento de trânsito pesado, em que o cidadão negocia a cotoveladas (ou eu deveria dizer a “fechadas” e “guinadas”?) seu espaço entre os outros carros, é um momento em que ele se funde, se torna, aquele estereótipo de stress encarnado atrás de um volante. Num outro extremo, os dois amantes que se derretem em enlevo amoroso, deitados nus um ao lado do outro, fundindo-se um no outro e tornando-se um só, meditam na expressão deste amor em derretimento físico e na sensação se ausência de fronteiras ou limites entre um e o outro.

Entendida nesse contexto, qualquer atividade na qual você coloque sua atenção plena se torna uma meditação. Aqui entra o conceito e a importância da qualidade de sua meditação. “Você é o que você come” – ou seja, as qualidades ou características daquilo sobre o que você medita – consciente ou inconscientemente, já sabemos – tendem a se incorporar a você como seus próprios traços. Ken Wilber chama isso de converter estados em características (“states into traits“). Assim, se seus pensamentos giram constantemente em torno de seu futuro incerto, o resultado natural é o seu comportamento ansioso; se a sua preferência é pelas memórias do passado, um dos resultados possíveis é a melancolia. Desse modo, focar-se no silêncio, em pensamentos ou visualização de imagens de harmonia e compaixão, deverá trazer para seu ser qualidades mais compassivas e harmoniosas, à medida que sua prática se aprofunda.

E é aqui que entra o papel das chamadas “meditações dinâmicas”, uma das geniais criações do revolucionário místico indiano Osho (a.k.a. Bhagwan Shree Rajneesh, www.osho.com), nos anos 70. Osho percebeu, ao receber crescentes grupos de buscadores ocidentais em seu ashram em Poone, Índia, que era praticamente impossível para estas pessoas, recém saídas do dia-a-dia estressante de suas vidas urbanas, chegarem a um retiro e se sentarem em silêncio — a inércia dos pensamentos acelerados praticamente inviabilizava a experiência direta de meditação em silêncio. Era preciso primeiro esvaziar os conteúdos emocionais, as tensões físicas e os pensamentos incessantes, para que só então o sujeito conseguisse a paz necessária para um bom “zazen”. E este caminho passa pelo corpo.

Entre as “n” técnicas de meditação dinâmica criadas por Osho, certamente a mais recomendada para lidar com a sombra e a inércia de nossos conteúdos emocionais e pensamentos incessantes é a chamada, literalmente, “Dinâmica”. Composta por 5 estágios, marcados por uma trilha sonora especialmente construída para a meditação em um CD de apoio, com duração de uma hora, recomenda-se praticá-la de manhã cedo, antes de iniciar as atividades diárias. O primeiro estágio consiste em uma respiração caótica, extremamente intensa e com foco somente na “expiração”, por cerca de 10 minutos. Esse estágio é crucial e prepara o restante da meditação. Se você não coloca 100% de intensidade nesta etapa, o restante é praticamente desperdiçado. Logo após a respiração caótica, entra o segundo estágio: a catarse. É o momento de botar tudo pra fora, explodir as energias “trancadas” dentro de si, gritar, espernear, dar porrada em almofada, matar o chefe e a sogra, etc. Importante nesse momento é manter o corpo sempre em movimento, mesmo que venham sentimentos de tristeza e choro, para não deixar a energia estagnada. Essa fase será subitamente interrompida pelo “WHO”, o terceiro estágio, onde se deve saltar (baixo) sobre as plantas dos pés, com os braços esticados para o alto, ao mesmo tempo em que se emite um som gutural “WHO-WHO-WHO…” a partir do baixo ventre, ininterruptamente, seguindo a música. Esse estágio tem a dupla função de “limpar” qualquer conteúdo remanescente da fase da catarse, de forma súbita, e exaurir suas energias fisicamente, para que o silêncio — no quarto estágio — possa se manifestar. O “WHO” então termina com um súbito “STOP” e você paralisa seu movimento, na posição em que estiver, e mantém essa posição durante todo o período de silêncio. Apenas observe o que acontece, dentro e fora, seu corpo, sua energia, emoções, pensamentos. Não se envolva e apenas seja a testemunha. No final, o quinto estágio traz a música para uma dança final de celebração. E você pode comemorar ter “sobrevivido” a mais uma Dinâmica.

Não recomendo fazer essa técnica sozinho, especialmente se nunca a tiver praticado. Grupos praticantes de Dinâmica podem ser encontrados em sua região, basta dar um Google, e tem até instrução no YouTube, numa matéria do ClicRBS, com o bônus do gauchês da “guria” que descreve a técnica: http://www.youtube.com/watch?v=RhnMsJk8zdM

Como uma nota final: vai por mim, você vai ver o vídeo e achar tudo esquisitíssimo, que foi exatamente como eu reagi a primeira vez que vi alguém fazendo Dinâmica… Eu estava em um retiro na Suécia, super zen, alimentação vegetariana e tal, e, na época, eu praticava Tai Chi Chuan. Fui fazer minha prática cedinho, do lado de fora do dojo onde as meditações aconteciam, e de repente!, começa aquela barulheira lá dentro e uma norueguesa, sozinha, começou a fazer a tal da Dinâmica. Do alto da minha pretensão, pensei: “Nossa, isso é coisa pra esses europeus reprimidos, que precisam passar por isso! Eu não vejo sentido nisso, não é pra mim!” Essa era a medida do meu auto-engano… Depois que comecei a praticar Dinâmica diariamente, levei ainda várias semanas para que a “coisa” despertasse e a minha “caixa de Pandora” fosse aberta. Aí, meu caro, sai da frente!!!

O potencial dessa meditação é realmente enorme, tão ilimitado quanto as suas próprias necessidades de se observar e de se conhecer. E, na minha experiência, sem antes “se esvaziar” e “desentupir o cano”, não tem meditação “zen” que sobreviva. Na linha do que disse na coluna anterior, não existe luz sem sombra, e é impossível avançar para a luz sem trabalhar de forma consciente a sua sombra.

Encontre um grupo em sua cidade, faça Dinâmica, e compartilhe aqui.

Boa meditação!