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Uma nota sobre “Function, Flow and Glow”, de David Deida

Function, Flow & Glow cover

Numa interessante palestra em 2004 no Integral Institute, de Ken Wilber, David Deida ofereceu uma valiosa contribuição para a solução de um equívoco muito comum entre os assim chamados “buscadores espirituais”: as diferenças entre terapia – ioga – espiritualidade.

Nós vamos trabalhar esse tema daqui a algumas semanas no retiro de carnaval, por isso antecipo aqui alguns dos conceitos que serão úteis, não só para os participantes como para o público mais amplo.

Na minha experiência, comunidades espirituais costumam demonstrar preconceito com terapias em geral. No entanto, isso decorre de um mal entendido sobre os objetivos, o alcance e as formas de uma e de outra.

Terapia tem a ver com consertar aquilo que está quebrado — “ferido”, “partido” — em sua psiquê, de modo a melhorar a sua capacidade de funcionar no mundo. Desse modo, tem a ver com a “função”.

Ioga tem a ver, por outro lado, com a capacidade que o seu corpo tem de absorver, circular e devolver energia vital para o mundo à sua volta. Assim, são práticas físicas que ampliam o seu fluxo de energia, em todas as suas expressões.

Espiritualidade, por sua vez, consiste simplesmente em reconhecer a sua real natureza e a natureza de todas as coisas como uma só consciência, uma só luz, um mesmo Ser. Pessoas que experimentam estes (em geral, raros!) momentos, têm um certo brilho característico. Daí a expressão “glow” a que Deida se refere.

David usa uma imagem interessante para ilustrar esse ponto.

Imagine que você é como uma vidraça. E que se dá conta de que está quebrada. Fazer terapia significa “colar os cacos” de volta na vidraça, com o objetivo de torná-la novamente “inteira”. Assim, ela volta a funcionar como vidraça.

Na mesma situação, fazer ioga consistiria em “tirar a poeira” da vidraça, permitindo que passe mais luz através dela, mesmo continuando quebrada! Assim, tem a ver com o fluxo de energia/luz que passa através dela, mas sem alterar a sua estrutura.

A espiritualidade, por outro lado, significa reconhecer-se como a própria luz que passa pela vidraça, esteja ela quebrada ou empoeirada. Saber que você é a própria luz elimina qualquer necessidade de consertar ou limpar a vidraça… Do ponto de vista da “luz”, essas duas ações sequer fazem sentido, pois não alteram a natureza essencial da luz em si.

E é aqui que a coisa pega!

Se a metáfora acima já estiver clara, então você já entendeu as implicações deste raciocínio: nenhuma prática, técnica ou atividade tem a capacidade de lhe fazer reconhecer a sua natureza essencial como a própria luz divina. Ou seja, não importa o quanto você faça terapia ou pratique ioga/meditação, nada disso pode te levar a reconhecer a natureza última do Ser, nada disso pode te levar àquilo que muitas tradições chamam de “iluminação”.

(E, se você não estiver convencido deste meu ponto, faça o raciocínio pela negação: se não fosse assim, já haveria um “manual” de técnicas infalíveis para a iluminação. Descartando-se a seção de besteirol de “auto-ajuda espiritual” disponível nas livrarias, não me parece razoável supor que tal manual exista, ou estaríamos todos iluminados… Então…).

Outra conclusão importante deste raciocínio é que estes três “reinos” são completamente separados, como vasos não-comunicantes. Você pode conhecer uma pessoa que se “trabalhou” profundamente em terapia, se conhece em detalhes e que tem plena capacidade de funcionar no mundo em que vive, sem no entanto ter qualquer capacidade de transmitir energia/luz pelo seu corpo ou através de sua presença, nem tem qualquer entendimento de sua natureza mais profunda enquanto expressão da luz divina.

Ao mesmo tempo, há grandes iogues, com extrema capacidade de transmitir energia por sua presença — aquelas pessoas capazes de “abrir a sala” no minuto em que entram na casa — mas completamente incapazes de se relacionar de forma madura com sua esposa e/ou filhos, nem têm qualquer compreensão mais profunda sobre sua natureza divina.

E há ainda, mas em menor número, aqueles seres iluminados, auto-realizados, capazes de habitarem de modo permanente um espaço de absoluta integração com tudo e todos à sua volta, ao mesmo tempo em que não têm qualquer capacidade de transmitir energia através de seus corpos, nem conseguem funcionar minimamente na sociedade, têm problemas com dinheiro, dificuldades de relacionamento com as outras pessoas, etc.

Em suma, se você está interessado em seu desenvolvimento integral, é absolutamente crucial compreender a extensão e os limites das atividades possíveis em cada um destes “reinos” e exercer um trabalho consciente de exploração e aprofundamento nas práticas adequadas para cada uma destas expressões do ser.

E aí, qual a sua prática?